Nossa história – infertilidade.

(Insônia.

1h da manhã, e minha mente está acesa pensando em cadeirinhas de criança, beliches, entrevistas com assistente social, as crianças, etc., etc., etc.)

De volta ao princípio. Parte 1.

D. e eu nos conhecemos no início de 2005. No meio do ano começamos a namorar, e menos de dois anos depois estávamos casados. Eu, com fresquinhos 21 anos, ele quase fazendo 23.

casamento

Até o dia do casamento, literalmente, não pensávamos concretamente em ter filhos, era uma ideia distante e até incerta.

Até hoje não sei bem ao certo o que aconteceu, e porque; só sei que no dia imediatamente após nosso casamento, um botãozinho dentro de mim foi aceso, e eu queria engravidar. Queria MUITO engravidar. Assim de repente, meu maior sonho virou me tornar mãe (daquelas que não trabalham fora, ficam em casa administrando, fazendo bolinhos com os filhos, jogos educativos, brinquedos de sucata e vulcões de areia).

Esperamos quase um ano para começar a tentar. Morávamos em uma kitchenette de 45m2, ao lado dos meus pais. Éramos muito novos, ainda não havíamos concluído a graduação, não tínhamos um bom salário, mas sabíamos o que queríamos: ser pais. Achamos que dentro de poucos meses estaríamos grávidos.

Conheci através de uma amiga o método de medição da temperatura basal para controlar o ciclo. Durante meses, anos, a primeira coisa que eu fazia ao acordar era meter o termômetro na boca, e registrar os dados do dia em um aplicativo – “Fertility Friend”. Registrava tudo que observava: meu ânimo no dia, meu nível de stress, de energia, quando tínhamos relações, se havia tomado remédio ou vitaminas, e outras coisas mais que não convém dividir aqui. Participava de fóruns na internet, onde discutia com outras mulheres a melhor posição para se engravidar, dicas do que fazer antes e depois da relação, o que comer, o que deixar de comer. Encomendei vitaminas online e tomava religiosamente meu composto, confiando que aquilo ia fazer a diferença.

Quando estávamos chegando perto de dois anos tentando, começamos a visitar médicos especialistas e fazer exames. D. passou por uma cirurgia de varicocele, de mim tiraram endometriose e cistos no ovário. Continuava tomando vitaminas. Comprava testes de ovulação e de gravidez às dezenas. Eu sabia o que cada hormônio fazia, quando os níveis aumentavam e diminuíam, e em que nível eles deveriam estar para caracterizar período fértil. Era um desafio enorme ter relações com meu marido pelo prazer e por amor. Cada vez eu pensava… “será que dessa vez foi?”.

Há quem diga que exatamente isso é o que nos impediu de engravidar. A dificuldade de deixar acontecer, de desligar. Mas diz aí… pra você é fácil “desligar” do teu maior sonho, e “deixar rolar”?

Pois é, foi o que eu pensei.

 

Sobre a dor de não conseguir.

Cada mês era um novo drama. A cada início de um novo ciclo, meu coração e minha esperança eram moídos em pedacinhos. Não consigo achar nenhuma palavra em português que descreva tão bem o sentimento, como essa: crushed. Sempre levava alguns dias para me recuperar e voltar a ter esperança: “dessa vez ia dar certo”.

Enquanto isso, grávidas surgiam ao meu redor como mato num terreno baldio (a analogia com conotação negativa é proposital). No início eu ainda me alegrava com elas, e pensava “logo serei eu”. Ficava contando quantos meses faltavam para o meu aniversário, para o de D., para o Natal, para o dia dos namorados, e assim vai… na esperança de engravidar ou ter filho em tal ou tal época, junto com tal ou tal amiga. Ficava planejando como iria contar para D., para nossa família, para nossos amigos. E nomes, então? Tínhamos nomes escolhidos para 8 filhos. OITO.

Com o tempo, foi ficando mais difícil disfarçar a dor por trás de um sorriso amarelo e um “parabéns” mais ou menos bem intencionado. Certas vezes não conseguia me conter: ouvia a notícia dada do púlpito da igreja, e ia aos prantos ali mesmo, na frente de todos. Lembro bem do meu pai me apertando forte em um abraço num momento desses, e dizendo com carinho e condolência: “é difícil, né?”. Ah, pai… inexplicavelmente difícil.

Com o tempo foi ficando mais difícil ficar perto de bebês ou crianças, de mulheres grávidas ou com filhos pequenos. Chorava só de ver um carrinho de bebê na rua. O sentimento não era mais tanto de tristeza, mas sim de raiva. Por que eu? Sério mesmo, Deus? Vai me privar do meu maior sonho, que além de tudo é uma coisa boa, pura e linda?

Com três anos de casados mudamos de país. As coisas estavam indo muito bem, e com tanta novidade, ficou mais fácil deixarmos um pouco a angústia de lado e nos distrairmos com outras coisas. Mesmo assim continuávamos tentando, e depois que as coisas se acalmaram e entraram na rotina no novo lar, a ansiedade por sermos pais também começou a voltar com toda força. Mas nosso sentimento (D. e eu) não era igual, nem tinha a mesma intensidade. E por não entender ainda muitas das diferenças entre um homem e uma mulher, entre meu marido e eu, com frequência eu me sentia completamente sozinha.

Desde o nosso namoro, uma coisa nos era certa e em comum. Falávamos com muita facilidade e de boca cheia, que caso algum dia tivéssemos dificuldade para engravidar, não investiríamos em tratamentos de fertilidade, mas sim em adoção. Como é fácil falar sem conhecimento de causa, não?! Quando falávamos isso, não imaginávamos jamais que de fato teríamos que um dia fazer essa escolha, ou sequer que teríamos dificuldade para engravidar. Mesmo assim, a ideia de adotar já tinha se enraizado nos nossos corações – mas ela precisava ainda ser amadurecida.

Depois de cerca de 5 anos tentando engravidar, e de algum tempo conversando sobre adoção, decidimos de vez entrar nessa aventura. Mas a nossa ideia era a seguinte: “já que estamos demorando tanto para engravidar, vamos começar já o processo de adoção. Dessa forma estaremos simplesmente mudando a ordem das coisas: ao invés de termos filhos biológicos primeiro, e depois adotarmos, vamos ver se conseguimos acelerar o processo colocando a adoção na frente.” Estávamos certos de que ainda iríamos engravidar um dia também.

Com isso em mente, iniciamos oficialmente o processo em 12. Abril 2012. Pesquisamos quais os primeiros passos, preenchemos os primeiros formulários, e enviamos ao órgão responsável.

Ainda não tínhamos ideia do que enfrentaríamos.

RAD – OMG.

Outro baque. E esse, dos fortes. (E o de ontem foi o que, então?)

Meu dia começou como ontem: leitura na cama. Decidi ler um artigo que meu marido imprimiu para mim no trabalho ontem: “The Potential Downside of Adopting Siblings”, de Becky Malecki (“O perigo potencial em adotar irmãos”).

A autora do texto defende a ideia de que pode, sim, ser melhor que irmãos biológicos sejam separados na hora da adoção. Absurdo, você diz? Pois é, também foi essa a minha reação. Até ler o artigo.

Ela alega que crianças que não passaram por abusos têm mais chances de se beneficiar da adoção conjunta. Porém, aquelas que foram destituídas da família por abandono ou abusos, seja eles de que natureza forem (emocional, físico, sexual…), apresentam um risco muito alto de desenvolver o que é chamado de (RAD – Reactive Attachment Disorder) “Transtorno de apego reativo”.

Essas crianças, quando adotadas em conjunto com seus irmãos, são constantemente lembradas dos abusos que sofreram, e têm uma dificuldade muito maior de serem curadas. Também acaba se tornando muito mais difícil para eles formarem um vínculo afetivo com os pais adotivos. Os irmãos podem além disso criar um ciclo vicioso de repetição dos abusos que sofreram nos primeiros anos de vida: agora, porém, não só individualmente, mas em conjunto, como uma força armada. As suas reações de “teste” são muito mais difíceis de controlar com um adulto para duas, três ou mais crianças. Alguns exemplos dessas reações são: estragar coisas valiosas em casa, fazer xixi na cortina, agredir um irmão ou o gatinho do vizinho, e por aí vai. Não se pode deixar os irmãos sozinhos para ir ao banheiro, pois eles podem aproveitar a oportunidade para abusar ou agredir (consciente ou inconscientemente) seus irmãos, ou o que virem pela frente. A rivalidade e o desentendimento entre essas crianças pode tomar proporções parecidas com as que viveram em casa quando pequenos.

Segundo Malecki, se esses irmãos forem adotados separadamente, torna-se então possível a sua cura e a restauração do seu emocional. Quando essa criança ganha a atenção exclusiva dos pais, ela consegue mais facilmente formar laços afetivos profundos, se desprender dos sofrimentos da sua vida no lar/com os pais biológicos, e ser curada das consequências desses traumas.

Um trecho específico fez o café da manhã revirar no meu estômago (tradução própria):

“Durante anos, quando eu estava sozinha com os três, eu tinha que levar minha filha junto para o banheiro quando eu ia tomar banho. Ela ficava ali brincando enquanto eu conversava com ela constantemente. Meu filho do meio podia brincar no piano – assim eu podia monitorá-lo pelos sons, e o mais velho era rigidamente instruído a brincar no quarto dele. Imagine uma criança de oito anos sexualmente molestando um irmão/uma irmã mais novo/a enquanto andam de bicicleta em frente de casa – uma brincadeira que dura alguns segundos, mas que eles repetiam de novo e de novo: inacreditável? Trata-se de crianças com RAD, determinadas a não melhorarem.”

e

“Grupos de irmãos carregam uma memória coletiva dos seus traumas do passado. Através da constante interação uns com os outros, eles ajudam a manter o passado vivo. Eles reavivam as memórias uns dos outros.”

Me pergunto o tempo inteiro se eu terei condições de lidar com problemas como esse. Diante disso, a questão de as crianças não dormirem no começo soa até inofensiva. Não dormir? Damos um jeito. Não ter tempo pra mim? Sobreviverei. Dinheiro curto? Nos adaptamos.

Mas isso aí em cima? Como eu faço pra lidar? Como eu posso ajuda-los? De onde vou tirar forças/entendimento/paciência/compreensão/compaixão/tempo/capacidade afetiva-mental-emocional pra lidar com isso? São perguntas que passam pela minha cabeça num flash, em questão de segundos mesmo. Chega a dar dor de cabeça, só de pensar. Chega a dar ânsia de vomito, e vontade de chorar, pensando que meus filhos podem passar por dores e traumas tão grandes, que os marquem e os impeça pra sempre de terem um emocional saudável e confiante. Nessas horas me sinto completamente perdida e incapaz. Mesmo assim… eu ainda os desejo, e já os amo profundamente.

Primeiro (?) baque.

Há quanto tempo eu não escrevo em Português? Até tive que mudar a língua do teclado de volta para a língua mãe.

Não queria deixar de registrar como estou me sentindo hoje. Esse deverá ser o primeiro post de um blog sobre nossa saga com o processo de adoção. Claro, não cronologicamente.

Estamos em 1. Fevereiro de 2016. Há poucas semanas decidimos que queremos mudar nosso processo de adotar um bebê de até 2 anos nascido na Suíça, para adotar 3 crianças de até 7-8 anos, irmãos, nascidos no Brasil.

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Essa mudança não vai ser fácil. Para conseguirmos a habilitação para um bebê, levamos quase um ano de conversas – e quase brigas – com a assistente social. Processo esse, que normalmente leva de 3-6 meses. Agora queremos 3. E mais velhos. E de fora. Como podemos provar pra ela que estamos prontos? Que não vamos querer devolve-los na primeira nem na milésima crise que aparecer? Que essa decisão e mudança são frutos de longas conversas, de muito pensar, imaginar, estudar, sonhar e cogitar…?

Não basta estarmos dispostos – temos que saber em que fria estamos entrando. E temos que estar preparados para lidar com cada eventual face dessa “fria”. Então decidimos, mais uma vez, estudar. Alguém muito sábio falou esses dias que, para adotar, é necessário tornar-se um especialista no assunto. Muito correto.

Porém, há poucos dias, meu cunhado nos escreveu sobre um bebê conhecido que precisa de uma família. O bebê tem 3 meses e mora nos EUA. Então toda aquela conversa sobre “bebê ou não bebê, eis a questão”, voltou à tona. E eu percebi que para o meu marido, talvez esse assunto não estivesse ainda assim tão resolvido quanto para mim. Ele não para de pensar nesse bebê, e eu achando que é uma viagem total, e que não teria mais paciência para um bebê. Explico isso melhor outra hora.

Bem, mas vamos ao tema: meu primeiro baque. Ontem de noite resolvemos colocar no papel o nosso planejamento diário/semanal com 3 filhos. Que horas vamos ter que acordar? Que horas eles vão tomar banho? Quem vai acompanha-los na escola, enquanto não souberem ir sozinhos? Quanto tempo vão precisar para fazer a lição de casa? Quando vamos ter tempo pra leva-los para escalar, para caminhar na montanha, ou simplesmente para ficar em volta da mesa de um demorado e falante café da manhã? (Adotar é assim: você pensa muito mais, vai muito mais afundo, tentando prever como vai ser. Tentando provar que vai dar conta. Somos obrigados a fazer isso.) Quem tem filhos já consegue imaginar a rotina, mas nós ainda não tínhamos ideia. Nos assustamos com a rotina cheia, com o stress, com a correria, com a falta de tempo pra nós (individual e como casal), com a falta de tempo livre pra eles, de tempo livre com eles. Com isso na cabeça, fomos dormir.

Hoje de manhã, ainda na cama, curtindo umas férias bem merecidas, resolvi começar a ler o livro “Adoption – und danach?”. Pra quê, né? Já no primeiro capítulo, outro baque. Pais adotivos contando de sua experiência com “Schlafstörungen”. Enquanto lia tudo aquilo, fui tentando imaginar como seria multiplicando tudo por 3. Pânico.

Peraí, quer dizer então, que não é só bebê que não dorme de noite? Eu vou ter que me mudar pro quarto deles por quanto tempo? Meses, anos? Quando vou poder dormir com meu marido? Quando vou conseguir DORMIR?

Cheguei à seguinte conclusão: talvez as assistentes sociais, as psicólogas, os profissionais do juizado, tenham todos razão quando nos fazem remoer dolorosa e longamente cada aspecto de uma adoção, antes de nos abençoarem com a habilitação. Talvez, só talvez, nós realmente não temos ideia da fria que estamos nos metendo. Quem sabe é justamente por isso que crianças ainda são adotadas: aquele desejo que não cala de ter filhos, de ser família, de rir e chorar com eles, de ensinar, de carregar no colo… esse desejo acaba nos impedindo de prever todas as dificuldades que enfrentaremos. Acabamos “romantizando” um pouco o “ter filhos”, e graças a Deus por isso. Entramos nessa quase que um pouco anestesiados de alegria, e sim, também um pouco enganados. Afinal de contas, esperamos por isso e literalmente LUTAMOS por isso durante anos. Mas e a realidade, será que vai ser tão doce assim?

 

Muitas vezes, a ignorância é bênção.