Primeiro (?) baque.

Há quanto tempo eu não escrevo em Português? Até tive que mudar a língua do teclado de volta para a língua mãe.

Não queria deixar de registrar como estou me sentindo hoje. Esse deverá ser o primeiro post de um blog sobre nossa saga com o processo de adoção. Claro, não cronologicamente.

Estamos em 1. Fevereiro de 2016. Há poucas semanas decidimos que queremos mudar nosso processo de adotar um bebê de até 2 anos nascido na Suíça, para adotar 3 crianças de até 7-8 anos, irmãos, nascidos no Brasil.

cara-de-susto

Essa mudança não vai ser fácil. Para conseguirmos a habilitação para um bebê, levamos quase um ano de conversas – e quase brigas – com a assistente social. Processo esse, que normalmente leva de 3-6 meses. Agora queremos 3. E mais velhos. E de fora. Como podemos provar pra ela que estamos prontos? Que não vamos querer devolve-los na primeira nem na milésima crise que aparecer? Que essa decisão e mudança são frutos de longas conversas, de muito pensar, imaginar, estudar, sonhar e cogitar…?

Não basta estarmos dispostos – temos que saber em que fria estamos entrando. E temos que estar preparados para lidar com cada eventual face dessa “fria”. Então decidimos, mais uma vez, estudar. Alguém muito sábio falou esses dias que, para adotar, é necessário tornar-se um especialista no assunto. Muito correto.

Porém, há poucos dias, meu cunhado nos escreveu sobre um bebê conhecido que precisa de uma família. O bebê tem 3 meses e mora nos EUA. Então toda aquela conversa sobre “bebê ou não bebê, eis a questão”, voltou à tona. E eu percebi que para o meu marido, talvez esse assunto não estivesse ainda assim tão resolvido quanto para mim. Ele não para de pensar nesse bebê, e eu achando que é uma viagem total, e que não teria mais paciência para um bebê. Explico isso melhor outra hora.

Bem, mas vamos ao tema: meu primeiro baque. Ontem de noite resolvemos colocar no papel o nosso planejamento diário/semanal com 3 filhos. Que horas vamos ter que acordar? Que horas eles vão tomar banho? Quem vai acompanha-los na escola, enquanto não souberem ir sozinhos? Quanto tempo vão precisar para fazer a lição de casa? Quando vamos ter tempo pra leva-los para escalar, para caminhar na montanha, ou simplesmente para ficar em volta da mesa de um demorado e falante café da manhã? (Adotar é assim: você pensa muito mais, vai muito mais afundo, tentando prever como vai ser. Tentando provar que vai dar conta. Somos obrigados a fazer isso.) Quem tem filhos já consegue imaginar a rotina, mas nós ainda não tínhamos ideia. Nos assustamos com a rotina cheia, com o stress, com a correria, com a falta de tempo pra nós (individual e como casal), com a falta de tempo livre pra eles, de tempo livre com eles. Com isso na cabeça, fomos dormir.

Hoje de manhã, ainda na cama, curtindo umas férias bem merecidas, resolvi começar a ler o livro “Adoption – und danach?”. Pra quê, né? Já no primeiro capítulo, outro baque. Pais adotivos contando de sua experiência com “Schlafstörungen”. Enquanto lia tudo aquilo, fui tentando imaginar como seria multiplicando tudo por 3. Pânico.

Peraí, quer dizer então, que não é só bebê que não dorme de noite? Eu vou ter que me mudar pro quarto deles por quanto tempo? Meses, anos? Quando vou poder dormir com meu marido? Quando vou conseguir DORMIR?

Cheguei à seguinte conclusão: talvez as assistentes sociais, as psicólogas, os profissionais do juizado, tenham todos razão quando nos fazem remoer dolorosa e longamente cada aspecto de uma adoção, antes de nos abençoarem com a habilitação. Talvez, só talvez, nós realmente não temos ideia da fria que estamos nos metendo. Quem sabe é justamente por isso que crianças ainda são adotadas: aquele desejo que não cala de ter filhos, de ser família, de rir e chorar com eles, de ensinar, de carregar no colo… esse desejo acaba nos impedindo de prever todas as dificuldades que enfrentaremos. Acabamos “romantizando” um pouco o “ter filhos”, e graças a Deus por isso. Entramos nessa quase que um pouco anestesiados de alegria, e sim, também um pouco enganados. Afinal de contas, esperamos por isso e literalmente LUTAMOS por isso durante anos. Mas e a realidade, será que vai ser tão doce assim?

 

Muitas vezes, a ignorância é bênção.

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