A dor da infertilidade.

Pare por um minuto. Feche os olhos. E pense: o que você acha que sentiria se ouvisse as palavras „VOCÊ NÃO PODE TER FILHOS.“?

Talvez você já tenha ouvido essas palavras dolorosas, então com certeza vai se identificar com o que a Adriana Aparecida escreveu nesse texto.

Talvez você nunca tenha ouvido isso. Talvez esteja agora mesmo grávida, ou talvez tenha já seus 1, 2 ou 3 filhos lindos e saudáveis correndo pela casa. Te deixando de cabelos em pé. Exausta como nunca esteve antes. Considere essa exaustão uma bênção!

Seja de que lado da moeda você estiver, vale a pena ler/ouvir essas palavras tão verdadeiras que a Adriana escreveu sobre a dor da infertilidade. Seja para perceber que não está sozinha/o nessa, ou para entender um pouco mais a dor que muitos á sua volta estão sentindo.

Carinho, Carol.

Nossa história – infertilidade.

(Insônia.

1h da manhã, e minha mente está acesa pensando em cadeirinhas de criança, beliches, entrevistas com assistente social, as crianças, etc., etc., etc.)

De volta ao princípio. Parte 1.

D. e eu nos conhecemos no início de 2005. No meio do ano começamos a namorar, e menos de dois anos depois estávamos casados. Eu, com fresquinhos 21 anos, ele quase fazendo 23.

casamento

Até o dia do casamento, literalmente, não pensávamos concretamente em ter filhos, era uma ideia distante e até incerta.

Até hoje não sei bem ao certo o que aconteceu, e porque; só sei que no dia imediatamente após nosso casamento, um botãozinho dentro de mim foi aceso, e eu queria engravidar. Queria MUITO engravidar. Assim de repente, meu maior sonho virou me tornar mãe (daquelas que não trabalham fora, ficam em casa administrando, fazendo bolinhos com os filhos, jogos educativos, brinquedos de sucata e vulcões de areia).

Esperamos quase um ano para começar a tentar. Morávamos em uma kitchenette de 45m2, ao lado dos meus pais. Éramos muito novos, ainda não havíamos concluído a graduação, não tínhamos um bom salário, mas sabíamos o que queríamos: ser pais. Achamos que dentro de poucos meses estaríamos grávidos.

Conheci através de uma amiga o método de medição da temperatura basal para controlar o ciclo. Durante meses, anos, a primeira coisa que eu fazia ao acordar era meter o termômetro na boca, e registrar os dados do dia em um aplicativo – “Fertility Friend”. Registrava tudo que observava: meu ânimo no dia, meu nível de stress, de energia, quando tínhamos relações, se havia tomado remédio ou vitaminas, e outras coisas mais que não convém dividir aqui. Participava de fóruns na internet, onde discutia com outras mulheres a melhor posição para se engravidar, dicas do que fazer antes e depois da relação, o que comer, o que deixar de comer. Encomendei vitaminas online e tomava religiosamente meu composto, confiando que aquilo ia fazer a diferença.

Quando estávamos chegando perto de dois anos tentando, começamos a visitar médicos especialistas e fazer exames. D. passou por uma cirurgia de varicocele, de mim tiraram endometriose e cistos no ovário. Continuava tomando vitaminas. Comprava testes de ovulação e de gravidez às dezenas. Eu sabia o que cada hormônio fazia, quando os níveis aumentavam e diminuíam, e em que nível eles deveriam estar para caracterizar período fértil. Era um desafio enorme ter relações com meu marido pelo prazer e por amor. Cada vez eu pensava… “será que dessa vez foi?”.

Há quem diga que exatamente isso é o que nos impediu de engravidar. A dificuldade de deixar acontecer, de desligar. Mas diz aí… pra você é fácil “desligar” do teu maior sonho, e “deixar rolar”?

Pois é, foi o que eu pensei.

 

Sobre a dor de não conseguir.

Cada mês era um novo drama. A cada início de um novo ciclo, meu coração e minha esperança eram moídos em pedacinhos. Não consigo achar nenhuma palavra em português que descreva tão bem o sentimento, como essa: crushed. Sempre levava alguns dias para me recuperar e voltar a ter esperança: “dessa vez ia dar certo”.

Enquanto isso, grávidas surgiam ao meu redor como mato num terreno baldio (a analogia com conotação negativa é proposital). No início eu ainda me alegrava com elas, e pensava “logo serei eu”. Ficava contando quantos meses faltavam para o meu aniversário, para o de D., para o Natal, para o dia dos namorados, e assim vai… na esperança de engravidar ou ter filho em tal ou tal época, junto com tal ou tal amiga. Ficava planejando como iria contar para D., para nossa família, para nossos amigos. E nomes, então? Tínhamos nomes escolhidos para 8 filhos. OITO.

Com o tempo, foi ficando mais difícil disfarçar a dor por trás de um sorriso amarelo e um “parabéns” mais ou menos bem intencionado. Certas vezes não conseguia me conter: ouvia a notícia dada do púlpito da igreja, e ia aos prantos ali mesmo, na frente de todos. Lembro bem do meu pai me apertando forte em um abraço num momento desses, e dizendo com carinho e condolência: “é difícil, né?”. Ah, pai… inexplicavelmente difícil.

Com o tempo foi ficando mais difícil ficar perto de bebês ou crianças, de mulheres grávidas ou com filhos pequenos. Chorava só de ver um carrinho de bebê na rua. O sentimento não era mais tanto de tristeza, mas sim de raiva. Por que eu? Sério mesmo, Deus? Vai me privar do meu maior sonho, que além de tudo é uma coisa boa, pura e linda?

Com três anos de casados mudamos de país. As coisas estavam indo muito bem, e com tanta novidade, ficou mais fácil deixarmos um pouco a angústia de lado e nos distrairmos com outras coisas. Mesmo assim continuávamos tentando, e depois que as coisas se acalmaram e entraram na rotina no novo lar, a ansiedade por sermos pais também começou a voltar com toda força. Mas nosso sentimento (D. e eu) não era igual, nem tinha a mesma intensidade. E por não entender ainda muitas das diferenças entre um homem e uma mulher, entre meu marido e eu, com frequência eu me sentia completamente sozinha.

Desde o nosso namoro, uma coisa nos era certa e em comum. Falávamos com muita facilidade e de boca cheia, que caso algum dia tivéssemos dificuldade para engravidar, não investiríamos em tratamentos de fertilidade, mas sim em adoção. Como é fácil falar sem conhecimento de causa, não?! Quando falávamos isso, não imaginávamos jamais que de fato teríamos que um dia fazer essa escolha, ou sequer que teríamos dificuldade para engravidar. Mesmo assim, a ideia de adotar já tinha se enraizado nos nossos corações – mas ela precisava ainda ser amadurecida.

Depois de cerca de 5 anos tentando engravidar, e de algum tempo conversando sobre adoção, decidimos de vez entrar nessa aventura. Mas a nossa ideia era a seguinte: “já que estamos demorando tanto para engravidar, vamos começar já o processo de adoção. Dessa forma estaremos simplesmente mudando a ordem das coisas: ao invés de termos filhos biológicos primeiro, e depois adotarmos, vamos ver se conseguimos acelerar o processo colocando a adoção na frente.” Estávamos certos de que ainda iríamos engravidar um dia também.

Com isso em mente, iniciamos oficialmente o processo em 12. Abril 2012. Pesquisamos quais os primeiros passos, preenchemos os primeiros formulários, e enviamos ao órgão responsável.

Ainda não tínhamos ideia do que enfrentaríamos.