RAD – OMG.

Outro baque. E esse, dos fortes. (E o de ontem foi o que, então?)

Meu dia começou como ontem: leitura na cama. Decidi ler um artigo que meu marido imprimiu para mim no trabalho ontem: “The Potential Downside of Adopting Siblings”, de Becky Malecki (“O perigo potencial em adotar irmãos”).

A autora do texto defende a ideia de que pode, sim, ser melhor que irmãos biológicos sejam separados na hora da adoção. Absurdo, você diz? Pois é, também foi essa a minha reação. Até ler o artigo.

Ela alega que crianças que não passaram por abusos têm mais chances de se beneficiar da adoção conjunta. Porém, aquelas que foram destituídas da família por abandono ou abusos, seja eles de que natureza forem (emocional, físico, sexual…), apresentam um risco muito alto de desenvolver o que é chamado de (RAD – Reactive Attachment Disorder) “Transtorno de apego reativo”.

Essas crianças, quando adotadas em conjunto com seus irmãos, são constantemente lembradas dos abusos que sofreram, e têm uma dificuldade muito maior de serem curadas. Também acaba se tornando muito mais difícil para eles formarem um vínculo afetivo com os pais adotivos. Os irmãos podem além disso criar um ciclo vicioso de repetição dos abusos que sofreram nos primeiros anos de vida: agora, porém, não só individualmente, mas em conjunto, como uma força armada. As suas reações de “teste” são muito mais difíceis de controlar com um adulto para duas, três ou mais crianças. Alguns exemplos dessas reações são: estragar coisas valiosas em casa, fazer xixi na cortina, agredir um irmão ou o gatinho do vizinho, e por aí vai. Não se pode deixar os irmãos sozinhos para ir ao banheiro, pois eles podem aproveitar a oportunidade para abusar ou agredir (consciente ou inconscientemente) seus irmãos, ou o que virem pela frente. A rivalidade e o desentendimento entre essas crianças pode tomar proporções parecidas com as que viveram em casa quando pequenos.

Segundo Malecki, se esses irmãos forem adotados separadamente, torna-se então possível a sua cura e a restauração do seu emocional. Quando essa criança ganha a atenção exclusiva dos pais, ela consegue mais facilmente formar laços afetivos profundos, se desprender dos sofrimentos da sua vida no lar/com os pais biológicos, e ser curada das consequências desses traumas.

Um trecho específico fez o café da manhã revirar no meu estômago (tradução própria):

“Durante anos, quando eu estava sozinha com os três, eu tinha que levar minha filha junto para o banheiro quando eu ia tomar banho. Ela ficava ali brincando enquanto eu conversava com ela constantemente. Meu filho do meio podia brincar no piano – assim eu podia monitorá-lo pelos sons, e o mais velho era rigidamente instruído a brincar no quarto dele. Imagine uma criança de oito anos sexualmente molestando um irmão/uma irmã mais novo/a enquanto andam de bicicleta em frente de casa – uma brincadeira que dura alguns segundos, mas que eles repetiam de novo e de novo: inacreditável? Trata-se de crianças com RAD, determinadas a não melhorarem.”

e

“Grupos de irmãos carregam uma memória coletiva dos seus traumas do passado. Através da constante interação uns com os outros, eles ajudam a manter o passado vivo. Eles reavivam as memórias uns dos outros.”

Me pergunto o tempo inteiro se eu terei condições de lidar com problemas como esse. Diante disso, a questão de as crianças não dormirem no começo soa até inofensiva. Não dormir? Damos um jeito. Não ter tempo pra mim? Sobreviverei. Dinheiro curto? Nos adaptamos.

Mas isso aí em cima? Como eu faço pra lidar? Como eu posso ajuda-los? De onde vou tirar forças/entendimento/paciência/compreensão/compaixão/tempo/capacidade afetiva-mental-emocional pra lidar com isso? São perguntas que passam pela minha cabeça num flash, em questão de segundos mesmo. Chega a dar dor de cabeça, só de pensar. Chega a dar ânsia de vomito, e vontade de chorar, pensando que meus filhos podem passar por dores e traumas tão grandes, que os marquem e os impeça pra sempre de terem um emocional saudável e confiante. Nessas horas me sinto completamente perdida e incapaz. Mesmo assim… eu ainda os desejo, e já os amo profundamente.