Perdidos.

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Eles chegaram abalando e conquistando nossa casa e nossos corações, cantinho por cantinho. Até então só sabíamos os nomes, as idades, e tínhamos visto uma foto 3×4 de cada um. Ah, também sabíamos que o mais novo não come abobrinha.

Aos poucos fomos aprendendo mais – seus gostos, como dormem, quando acordam, seus medos, seu jeitinho de ser, suas vozes… seus interesses e seus desinteresses. Seus talentos e seus pontos fracos. O jeito de cada um de fazer charme, de pedir alguma coisa. Suas brincadeiras preferidas, suas cores preferidas, suas histórias. Suas matérias preferidas, seus amigos preferidos, sua saúde. Suas personalidades… O mais velho: teatral, inteligente, cuidadoso, tímido, corajoso, potencial súper-escalador. O mais novo: falador, cansado – nunca, doce, louquinho, destemido e a mais perfeita definição da palavra „piá“.

Brincadeiras preferidas: lutinha, esconde-esconde, e tudo mais que envolva corrida, explosões, bolas, tombos engraçados, aventuras e peidos. 🙂

Foram só duas semanas. Só duas semanas? Eles já deixaram um rombo no nosso coração.

Eles foram embora há dois dias, mas voltam logo. No mínimo já viraram, nesse tempo tão curto, nossos „afilhados do coração“. Queremos vê-los e tê-los tanto quanto for possível, e o sentimento é recíproco.

E hoje recebi uma ligação da agência, „não querem pegar mais um de 10 anos, a longo prazo, um a dois finais de semana por mês, mais três semanas de férias por ano? Ele mora em um abrigo. Não pode viver com os pais, mas uma adoção está fora de questão“.

Estamos completamente perdidos. O que significa tudo isso? Onde ficam os nossos filhos nessa história? Será que é mesmo pra algum dia termos nossos próprios filhos?

Confusão e corações apertados são as palavras da vez.

 

A gente pensa diferente, a gente sente diferente…

Nós escolhemos a Suíça como nosso país do coração, onde vivemos e estamos felizes. E geralmente nos identificamos muito com a cultura daqui, também. Mas quando paramos pra pensar porque o nosso processo de adoção e o nosso relacionamento com a assistente social estão sendo tão difíceis, descobrimos algumas diferenças culturais profundas, que determinam nosso modo de ver as coisas, que determinam o que achamos certo e errado, arriscado ou seguro.

Os dois lados têm razão, e os dois lados têm seus motivos. O que buscamos é aprender com os dois, e idealmente encontrar o equilíbrio entre os dois.

Espero que gostem do vídeo de hoje!

Carinho, Carol.

Comentários que machucam…

Bom dia, queridos!

Hoje estou aqui pra – de novo – mostrar mais algumas das nossas frustrações ao longo dessa jornada. Não é novidade, tanto que nem preciso escrever nada de novo. Vou pegar meu caderninho e transcrever aqui algumas das minhas anotações dos últimos anos. Eis a nossa frustração:

„30. Julho de 2013

Se tem uma coisa que me irrita e chateia, ou pelo menos nos últimos meses/anos tem irritado e chateado, é quando os outros (e aqui realmente piora o sentimento conforme aumenta o grau de intimidade com a pessoa em questão) acham que entendem o que estamos passando e sentindo, sem terem passado pela mesma coisa. Ou quando acham que entendem mais do nosso problema, do que nós mesmos. Não gosto quando os outros ouvem do nosso problema, e ao invés de somente ouvirem e abraçarem e dizerem „deve ser mesmo difícil“, acham que sempre têm que dar uma opinião ou dizer coisas do tipo „vocês ainda são novos, ainda vai acontecer“. Frases como esses e tantas outras („se não aconteceu ainda, é porque ainda não é tempo“, ou „tem que relaxar e não pensar nisso, que acontece“) são tão fáceis de serem faladas, difíceis de serem ouvidas, não são verdadeiras, e além de tudo isso, são talvez o que eu mais odeie em diálogos: frases feitas que o locutor tem preparadas no fundo da cabeça, na ponta da língua, para evitar ter que ouvir, refletir, e tentar entender de verdade.

Porque talvez quando em um diálogo profundo e de verdade, sincero, ele possa chegar à conclusão de que mesmo tentando, ele não pode mesmo entender. E que às vezes, o melhor mesmo é simplesmente não dizer nada. Porque pra certas dores e sofrimentos, ou até pra certos pensamentos, não exista no mundo frase apropriada pra se dizer. Mas infelizmente, o mais fácil mesmo é fazer de conta que ouviu, que entende, e tacar no ouvinte uma frase feita.“

Carinho, Carol.

 

Sobre ansiedade, esperança, e nossos „filhos de férias“.

Bom dia, gente.

O vídeo de hoje está meio cheio de sentimentos.

Quem está ou já esteve num processo de adoção, sabe que a espera e as complicações no meio do caminho muitas vezes nos trazem sentimentos que não conseguimos nem entender direito, nem controlar. Muitas vezes são sentimentos bonitos, mas outras vezes nem tanto. Porém, todos eles fazem parte desse processo. Nossa história seria incompleta se nós contássemos só sobre as partes bonitas.

Então aqui vai, minha sessão „abrindo o coração“ pra vocês!

Carinho, Carol.

Sobre meu burnout e a tattoo nova.

Oi gente, tudo bem?

Tenho certeza de que o que todo mundo quer mesmo saber, é como ficou minha tattoo nova. 🙂 Mas aqui vai um pouquinho de contexto pra essa minha tattoo.

No começo do ano passado passei por um burnout. O Wikipedia define essa síndrome da seguinte forma:

„Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, definido por Herbert J. Freudenberger como „(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional“.

A dedicação exagerada à atividade profissional é uma característica marcante de Burnout, mas não a única. O desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho é outra fase importante da síndrome: o portador de Burnout mede a autoestima pela capacidade de realização e sucesso profissional. O que tem início com satisfação e prazer termina quando esse desempenho não é reconhecido. Nesse estágio, a necessidade de se afirmar e o desejo de realização profissional se transformam em obstinação e compulsão[1] ; o paciente nesta busca sofre, além de problemas de ordem psicológica, forte desgaste físico, gerando fadiga e exaustão.“*

Fadiga e exaustão são um „understatement“. Eu literalmente „fundi meu motor“. Há meses eu não via meus amigos, não sabia o que era final de semana, esquecia de comer, e andava chorando pela uni sem saber o motivo. Não conseguia mais me concentrar, e em muitos dias eu não achava tempo nem de tomar banho. Apesar da exaustão, eu não conseguia dormir. Parei de funcionar, ponto. Estava a seis meses de me formar em arquitetura, e de repente meu corpo e minha mente não quiseram mais cooperar. Com muita relutância, decidi fazer uma pausa do curso.

Quando finalmente me entreguei, fiquei um mês na cama. Mal tinha forças pra tomar banho. Tinha dificuldade para respirar, fraqueza e tremores, tonturas. Depois de um mês eu já conseguia descer um andar pra pegar o correio, e voltar pra cama/sofá. Foi um período bem difícil pra mim e pro meu marido.

Depois de um tempo comecei a fazer terapia, e comecei a ver utilidade para os livros de auto-ajuda, pela primeira vez na vida. Li um livro chamado „A cabana“. Não vou discutir aqui sobre a teologia quase que provocadora do livro; o que aprendi com ele foi uma nova e mais profunda forma de entender o amor de Deus por mim. Esse livro, a terapia e as descobertas que fiz sobre mim mesma e sobre Deus nesse período mudaram a minha vida. Quase que dá pra dividir minha vida em „pré-burnout“ e „pós-burnout“.

Aprendi a ser mais paciente comigo mesma, e a aceitar que tenho fraquezas. Aprendi que eu posso, sim, fazer ou ser o que eu quiser, mas que não preciso fazer/ser tudo. Que meu valor não está no que faço, e sim em quem sou, e que há uma diferença entre os dois. Aprendi de verdade que de fato não sou perfeita, e que tentar atingir perfeição aqui na terra é esperar algo impossível de mim mesma. Aprendi ainda que quem eu sou não é definido por o que sou em um determinado momento da minha vida: arquiteta, esposa, mãe… Mas que inúmeras facetas compõem o lindo e complexo caos chamado Carol. E que Deus me AMA exatamente assim.

Eu nunca tinha me animado o suficiente pra fazer uma tatuagem antes, porque nunca tive algo que quisesse estampado no meu corpo por tanto tempo. Mas por esse período ter sido tão importante e transformador na minha vida, fiz questão de registrar. E aí está o resultado!

Carinho, Carol

*https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_burnout

 

Problemas com a assistente social

Oi gente! Bem-vindos de volta.

Hoje resolvi falar sobre tudo que ouvimos de desaforo/desrespeito/preconceito da assistente social. Estou contando essas coisas, pois senti vontade de „dar nomes aos bois“, enfim, de contar em detalhes o porquê da nossa frustração com ela.

Como escrevi semana passada no post „Por que tão difícil?“, nós estamos agora aguardando o juizado marcar uma audiência conosco, onde também estará presente a advogada deles. Não sabemos ao certo se o motivo da audiência é o relatório negativo da assistente social, ou nossa reclamação da assistente social para o juizado.

De qualquer forma, estamos nos preparando para essa audiência como se fosse a única e última chance de mostrarmos pra eles que sabemos o que queremos, que estamos preparados, e que somos de confiança. Estamos fazendo um „plano de ataque“ com o que vamos falar, quem vai falar o que e em que ordem, e quais as possíveis perguntas deles e as respostas. Vamos ensaiar na frente do espelho. Vamos preparados pra „guerra“.

Tenho visto vídeos e lido blogs de outros pretendentes a pais adotivos no Brasil, e me frustro ao perceber que o nosso processo de habilitação tem sido tão mais complicado do que deveria/poderia ser. Me corrijam se eu estiver errada, mas tenho a impressão de que assistentes sociais do Brasil são até queridas, querem mais é conhecer a família/o casal, e chegam até a dar informações úteis para os pretendentes. A nossa, infelizmente, além de não ajudar em nada no processo e no nosso preparo, acabou atrapalhando em muito o processo. Ah, gente, que desespero. Nós só queremos ser pais.

Mas enfim… Aí está o vídeo de hoje, espero que ajude alguém. Comente, compartilhe, participe dessa jornada com a gente.

Carinho, Carol.